Sobre o Filme
O cinema de gênero costuma encontrar seu terreno mais fértil quando consegue unir o medo visceral ao frio fascínio da ciência. É exatamente essa atmosfera sufocante que BT Meza constrói em "Affection", uma obra que transita habilmente entre o terror psicológico e a ficção científica. Lançado em 2026 e já gerando debates calorosos entre os cinéfilos — refletidos em sua nota 5.9 no TMDB —, o longa aposta menos em sustos fáceis e muito mais na desconstrução gradual da sanidade, transformando um lar supostamente seguro em um verdadeiro labirinto mental.
Por que Vale a Pena
A trama nos apresenta a Ellie, vivida com uma intensidade magnética por Jessica Rothe, que se depara com uma condição perturbadora: sua memória é constantemente restaurada, deixando-a incapaz de reconhecer o próprio marido, interpretado por Joseph Cross, e a filha, vivida pela talentosa Julianna Layne. Cada "reinício" do sistema mnemônico de Ellie não é apenas um apagão, mas uma experiência profundamente desorientadora, que a enche de memórias inquietantes de uma vida que ela simplesmente não sabe se é sua. A dinâmica familiar, que deveria ser um porto seguro, torna-se uma fonte constante de paranoia e dúvida.
Atuações e Produção
O grande trunfo do roteiro é usar essa premissa de amnésia cibernética ou biológica — evitada aqui para não estragar as surpresas da trama — para explorar o terror da perda de identidade. Rothe entrega uma atuação física e emocionalmente exaustiva, fazendo o espectador sentir na pele a vertigem de acordar todos os dias ao lado de estranhos que dizem te amar. A direção de BT Meza potencializa essa claustrofobia através de uma paleta de cores frias, design de som opressor e uma edição que nos coloca diretamente no lugar da protagonista, sem saber em quem confiar ou qual versão da realidade abraçar.
Avaliação Final
Apesar de dividir opiniões e caminhar por uma linha tênue entre a genialidade e a confusão narrativa — o que justifica sua recepção morna, porém curiosa, na bilheteria e nas redes —, "Affection" é um convite instigante para quem gosta de pensar. Não espere respostas mastigadas, mas sim uma jornada angustiante sobre os laços que nos definem e o que realmente resta de nós quando a nossa própria história é apagada e reescrita à força. É um filme que ecoa na mente muito depois que os créditos sobem.




