Sobre o Filme
Lançado em 1979 sob a batuta do veterano Steno, *Dottor Jekyll e gentile signora* chega às telas como uma curiosa hibridação entre o terror gótico clássico e a *commedia sexy all'italiana*, subgênero que dominava as bilheterias da Bota naquele final de década. O filme propõe uma releitura livre e irreverente do mito criado por Robert Louis Stevenson, deslocando o cientista atormentado para um cenário burguês e lascivo, onde a dualidade entre o bem e o mal serve menos para debates filosóficos e mais para alimentar uma engrenagem de farsa sexual e humor pastelão. Com uma nota modesta no TMDB (5.0), a obra carrega o estigma de ser um "filme menor" na filmografia de todos os envolvidos, mas justamente por isso funciona como um documento fascinante de uma época em que o cinema popular italiano não tinha medo de misturar sangue falso, decotes generosos e crítica de costumes em um mesmo pacote.
Por que Vale a Pena
Vale a pena assistir justamente por essa falta de pudor em assumir sua própria natureza esquizofrênica: o roteiro não se leva a sério nem por um minuto, transformando a poção mágica em um pretexto para colocar o protagonista em situações de confusão de identidade que beiram o *vaudeville*. A graça está em ver como a "besta" interior do doutor não se manifesta como um monstro assassino, mas como um libertino sedutor que expõe a hipocrisia da alta sociedade ao seu redor. Para o espectador contemporâneo, o filme funciona como uma cápsula do tempo, oferecendo uma estética setentista vibrante — figurinos, decoração de interiores e uma trilha sonora funky que gruda na cabeça — além de saciar a curiosidade de ver como o cinema de gênero europeu lidava com a censura e a demanda por erotismo leve sem cair no pornô explícito.
Atuações e Produção
No centro do furacão está Paolo Villaggio, longe do seu icônico Fantozzi, mas ainda usando sua fisicidade desengonçada e seu timing cômico afiado para construir um Jekyll patético e um Hyde canastrão, sustentando o filme nas costas com uma performance que exige mais carisma do que profundidade. Ao seu lado, Edwige Fenech cumpre o "contrato" estelar de musa da época, emprestando beleza e uma presença de cena magnética à "gentile signora" do título, embora o roteiro a reduza muitas vezes a objeto de desejo ou vítima das circunstâncias farsescas. Gianrico Tedeschi completa o trio principal com a competência de um ator de teatro que sabe navegar no nonsense. A direção de Steno é funcional, priorizando o ritmo da piada em detrimento da atmosfera de suspense, e a produção, embora modesta nos efeitos especiais da transformação, acerta no design de produção colorido que disfarça as limitações orçamentárias com estilo.
Avaliação Final
No balanço final, *Dottor Jekyll e gentile signora* não é uma obra-prima esquecida nem um clássico do horror, mas sim uma diversão honesta e descompromissada que envelheceu melhor como comédia de costumes do que como thriller. Recomendo a sessão para cinéfilos que apreciam o cinema bis italiano, fãs de Villaggio curiosos para vê-lo fora da pele do funcionário público sofredor, ou para quem quer entender a mecânica da *commedia sexy* sem precisar assistir aos exemplares mais cansativos do gênero. Entre com a expectativa calibrada para o humor de situações e a estética *camp* dos anos 70, e você encontrará noventa minutos leves, picantes na medida certa para a época e surpreendentemente livres da pretensão que costuma afundar adaptações mais "sérias" do doutor e do senhor Hyde.


