Sobre o Filme
Juanma Bajo Ulloa retorna ao longa-metragem com "El mal" carregando nas costas a expectativa de quem fez história com o cultuado "Airbag" e a ousadia de "Baby", mas aqui o resultado oscila entre o fascínio visual e a frustração narrativa. A premissa, envolta em mistério até o último minuto, promete um mergulho nas entranhas do medo primordial, e o diretor consegue, nos primeiros atos, construir uma atmosfera sufocante, quase tátil, onde a fotografia granulada e o design de som fazem o trabalho pesado de nos colocar em estado de alerta constante. É um cinema de sensações, daqueles que dispensam diálogos expositivos para apostar no desconforto puro, e nisso Ulloa ainda é mestre.
Por que Vale a Pena
O grande trunfo do filme, sem dúvida, está no trio central. Natalia Tena entrega uma performance visceral, despida de vaidade, oscilando entre a fragilidade e uma ferocidade animalesca que prende o olhar do espectador; ela carrega o peso de ser a nossa âncora emocional num mar de absurdos. Tony Dalton, por sua vez, traz aquela frieza calculista que lhe cai como uma luva, criando uma dinâmica de poder tensa com Belén Fabra, que completa o triângulo com uma presença magnética, transitando entre vítima e algoz com uma naturalidade assustadora. A química entre eles sustenta a trama mesmo quando o roteiro decide flertar com o nonsense.
Atuações e Produção
No entanto, é justamente na escrita que "El mal" tropeça feio. A sensação que fica é a de um exercício de estilo que se perdeu no caminho para se tornar uma história coesa; o terceiro ato abandona a construção psicológica paciente para se atirar de cabeça num festival de choques gráficos e reviravoltas que beiram o risível, como se o diretor tivesse medo de que o público não "entendesse" a maldade sem um manual de instruções sangrento. A metáfora central, até então sugerida com inteligência, vira texto de apoio didático, desperdiçando a ambiguidade que tornava a experiência pertubadora de verdade.
Avaliação Final
No fim das contas, a nota 5.9 do TMDB soa como um veredito justo: é um filme irregular que brilha mais pela técnica e pelo elenco do que pela substância. Vale a sessão para fãs de horror autoral que apreciam uma estética suja e performances de entrega total, mas quem busca uma narrativa redonda e um final satisfatório pode sair da sala com gosto de "quase lá". Ulloa prova que ainda tem o pulso firme para filmar o medo, mas talvez precise confiar mais no espectador e menos no choque fácil para voltar ao topo do seu jogo.


