Sobre o Filme
Juan Cabral acerta em cheio na escolha do trio de protagonistas — Lineker, Valdano e Barnes não são apenas "rostos conhecidos", são arquivos vivos de uma época em que o futebol respirava outra cadência —, mas "El Partido" tropeça na própria ambição ao tentar costurar memórias individuais em uma narrativa coletiva coesa. O documentário flutua entre a nostalgia gostosa de vestiário e uma análise tática que, por vezes, soa didática demais para quem viveu aqueles anos e rasa para quem não viveu. Cabral tem o olho clínico para a imagem de arquivo, garimpando takes que a televisão aberta cortava, mas falta ao filme um fio condutor que segure a atenção além do charme magnético de seus três astros.
Por que Vale a Pena
A estrutura em "capítulos" baseados em jogadas icônicas funciona bem no papel, mas na tela gera uma fragmentação que quebra o ritmo emocional justamente quando a conversa esquenta. Valdano, com sua verve poética, rouba a cena sempre que fala, transformando lances brutais em literatura; Lineker traz a frieza cirúrgica do artilheiro que sabe exatamente o espaço que ocupa; já Barnes, muitas vezes relegado a coadjuvante de luxo, traz a perspectiva necessária de quem viu o jogo mudar de dentro para fora, tocando em pontos raciais e culturais que o roteiro insiste em apenas roçar. É frustrante ver temas tão densos serem abandonados no intervalo para dar lugar a mais uma montagem de gols em câmera lenta.
Atuações e Produção
Visualmente, o filme é um deleite para o cinéfilo de sofá: a restauração das fitas antigas, a trilha sonora que foge do óbvio "samba-rock" de arquivo e a fotografia das entrevistas atuais, com aquela luz de "conversa no fim de tarde", criam uma atmosfera íntima que convida ao aconchego. No entanto, a sensação que fica é a de um "making-of" estendido de uma série que nunca existiu, um especial de TV aberta esticado para noventa minutos de streaming. A nota 5.6 do TMDB não mente: não é um filme ruim, é um filme "certo" — correto, bem acabado, seguro —, mas que se recusa a chutar a bola para fora da área e arriscar o golaço de placa.
Avaliação Final
No fim das contas, "El Partido" vale o ingresso (ou o clique) pelo prazer simples de ouvir três gigantes falarem a mesma língua, a do futebol pensado com o coração e jogado com a cabeça. Se você procura uma radiografia profunda da geopolítica da bola nos anos 80/90, vai sair com fome; se quer matar a saudade de uma elegância que o jogo moderno, com seu VAR e sua pressa, muitas vezes esqueceu, o filme entrega exatamente o combinado. É um documentário para ser visto com uma cerveja na mão e o WhatsApp silenciado, daqueles que rendem bons papos depois dos créditos, mesmo que não mude a sua vida.



