Sobre o Conteúdo
Andrew Stanton, o homem que nos acostumou a ver a grandeza no detalhe através de obras-primas da animação, parece ter se perdido em sua própria ambiguidade com Em Um Piscar de Olhos. O filme é um projeto de escala monumental, tentando costurar fios invisíveis que atravessam milênios, mas o resultado final é uma colcha de retalhos onde as costuras aparecem mais do que o tecido. Existe uma tentativa palpável de emular a filosofia existencialista de grandes clássicos da ficção científica, porém o filme tropeça justamente onde deveria voar: na conexão emocional entre suas três linhas temporais.
Por que Vale a Pena
O elenco é, ironicamente, o aspecto que melhor traduz o descompasso dessa produção peculiar. Kate McKinnon tenta transpor sua verve cômica para um terreno mais dramático e contido, enquanto Rashida Jones e Daveed Diggs entregam atuações corretas que, infelizmente, parecem habitar filmes diferentes. Falta aquela química magnética que faria o espectador realmente acreditar que essas vidas, separadas por eras de distância, possuem qualquer peso real de impacto mútuo. É frustrante assistir a talentos tão distintos sendo subutilizados em um roteiro que prioriza a estética das ideias em detrimento da profundidade das pessoas.
Atuações e Produção
Visualmente, a obra entrega vislumbres de uma beleza austera que nos lembra por que Stanton é um cineasta admirado pela crítica. As transições temporais são tecnicamente admiráveis e a paleta de cores evolui com uma elegância que quase nos faz esquecer a fragilidade narrativa do conjunto. Contudo, essa sofisticação técnica acaba sendo uma faca de dois gumes, pois torna a experiência final ainda mais fria e distante do público. Somos convidados a observar um relógio complexo funcionando perfeitamente, mas sem qualquer pulsação de vida humana ou calor que justifique o tempo investido.
Avaliação Final
No fim das contas, a nota 5.6 no TMDB reflete exatamente o que é este filme: um experimento que ousa muito, mas realiza pouco do seu potencial latente. Ele não é um desastre absoluto, mas sofre daquela síndrome recorrente de produções que desejam ser profundas e acabam soando apenas enigmáticas por pura falta de foco. É o tipo de ficção científica que prefere filosofar sobre o ciclo da vida sem antes ter o cuidado de nos fazer importar com os personagens que a habitam. Fica na memória como uma promessa interessante que se dissolve no ar, quase como se nunca tivesse acontecido.





