Sobre o Filme
Salve, cinéfilas e cinéfilos de plantão. O cinema nacional de ficção científica acaba de ganhar um marco histórico e urgente com o lançamento de Fúrias (2026), dirigido com muita pulso firme por Nica Maleoa. Ambientado em um futuro não tão distante, o longa nos apresenta uma Porto Alegre totalmente transformada após se tornar a primeira cidade do mundo inteiramente terceirizada e administrada por uma megacorporação chamada Fratel. Prometendo segurança máxima e eficiência robótica, a gestão privada logo mostra sua face mais opressiva ao transformar a capital gaúcha num laboratório distópico de controle social, onde cada esquina é vigiada e o cidadão comum vira mero dado estatístico.
Por que Vale a Pena
O grande trunfo da obra, que faz valer cada segundo do ingresso, é a forma inteligente como subverte o gênero cyberpunk tradicional ao focar na periferia do sistema em vez de nos heróis tecnologicamente modificados. Em vez de hackers jovens salvando o dia, acompanhamos Téia e Nanã, um casal de idosas lésbicas e ciclistas que são sumariamente marginalizadas pelas novas políticas higienistas e algorítmicas da Fratel, vendo seus direitos básicos e sua liberdade evaporarem. A narrativa evita o panfleto chato e prefere investir em uma trama magnética sobre resistência cotidiana, mostrando que driblar a burocracia corporativa e o algoritmo pode ser um ato revolucionário e profundamente emocionante.
Atuações e Produção
Grande parte desse impacto se deve ao trabalho monumental da dupla protagonista, formada por Áurea Baptista e Denizeli Cardoso, cuja química em cena é palpável e transborda humanidade, urgência e afeto. Nica Maleoa demonstra uma direção segura ao equilibrar cenas de tensão urbana com momentos de respiro poético, conseguindo extrair o máximo de uma direção de arte engenhosa que ressignifica pontos turísticos de Porto Alegre sob a ótica fria do capitalismo tardio. A fotografia aposta em contrastes frios cortados pelo suor e pelas cores vibrantes das bicicletas das personagens, criando uma atmosfera visual imersiva que não deve em nada às superproduções hollywoodianas de orçamento inflado.
Avaliação Final
Em suma, Fúrias é daquelas obras raras que conseguem divertir, provocar reflexão e dialogar diretamente com as angústias do nosso tempo com muita personalidade brasileira. Sem entregar reviravoltas, garanto que o desfecho deixa o espectador com aquela sensação gostosa de urgência e esperança, provando que a nossa ficção científica está mais viva e afiada do que nunca. É um filme obrigatório para quem gosta de narrativas provocativas e personagens inesquecíveis, levando a minha nota máxima e recomendação fervorosa para ser visto na maior tela possível.
