Sobre o Filme
O cinema independente muitas vezes encontra na escassez de recursos o incentivo perfeito para apostar na força psicológica de suas tramas, e é exatamente esse o terreno onde "Memórias de um Acontecimentou" (originalmente conhecido como *Boy Undone*), dirigido por Leopoldo Laborde, tenta fincar suas raízes. Lançado em 2017 e carregando a estética crua do cinema de guerrilha, o longa nos convida a mergulhar em uma atmosfera claustrofóbica a partir de uma premissa fascinante: após uma noite intensa em um clube gay, um jovem acorda e percebe que o rapaz que levou para casa simplesmente perdeu a memória, sem saber o próprio nome, de onde veio ou como chegou ali.
Por que Vale a Pena
A partir desse ponto de partida, a narrativa se transforma em um quebra-cabeça intrigante que oscila entre o drama intimista e o suspense homoerótico. O elenco, formado por Paul Act, Eduardo Longoria e Rodrigo Lopezcarranza, esforça-se para sustentar a tensão palpável que cresce dentro do apartamento, transformando o espaço físico em um reflexo da confusão mental do protagonista anônimo. Sem documentos ou pistas óbvias, a dupla precisa navegar por um terreno minado de fragmentos de lembranças que podem ser verdades absolutas ou puras ilusões, mantendo o espectador em constante estado de dúvida sobre quem realmente é quem nessa história.
Atuações e Produção
Contudo, apesar da coragem temática e da proposta instigante de Laborde — um diretor conhecido por sua prolífica e ousada filmografia marginal —, o filme acaba tropeçando em sua execução técnica e rítmica. A nota 4.8 no TMDB reflete bem a divisão que o longa causa: enquanto a premissa de um thriller psicológico queer tem potencial de sobra, o orçamento limitado pesa na qualidade da produção, resultando em diálogos por vezes repetitivos e em um desenvolvimento dramático que perde o fôlego antes de alcançar o clímax emocional que o público espera.
Avaliação Final
Em suma, "Memórias de um Acontecimentou" é uma experiência irregular, recomendada principalmente para os entusiastas do cinema *queer* de guerrilha que toleram tropeços narrativos em troca de ousadia e experimentação. Não estamos diante de uma obra-prima incontestável, mas sim de um exercício de suspense intimista que, mesmo com suas fragilidades evidentes, consegue explorar com coragem os labirintos da mente humana, da identidade e da vulnerabilidade nos relacionamentos modernos.

