Sobre o Série
A nova aposta da antologia *Monstro* chega com a difícil tarefa de suceder o fenômeno Dahmer, e o faz trocando o horror contemporâneo pela atmosfera opressiva da Nova Inglaterra vitoriana. O que vemos em *A História de Lizzie Borden* não é apenas uma reconstrução do famoso julgamento de 1892, mas um mergulho claustrofóbico nas dinâmicas de poder, abuso psicológico e silenciamento feminino dentro de uma casa que mais parece um mausoléu. A direção de arte e a fotografia fazem um trabalho primoroso ao transformar a mansão dos Borden em um personagem à parte: corredores escuros, portas que rangem e uma paleta de cores dessaturada que sufoca o espectador tanto quanto a protagonista, criando a tensão necessária para entendermos o estopim da violência sem precisar apelar para o sensacionalismo barato.
Por que Vale a Pena
O grande trunfo da série, no entanto, reside no seu elenco formidável, ancorado por uma tríade de atrizes em estado de graça. Ella Beatty assume o papel-título com uma intensidade contida, oscilando entre a frieza calculista e a vulnerabilidade de uma mulher aprisionada pelas expectativas sociais e pela tirania doméstica; ela evita a caricatura da "mulher má" para construir uma figura complexa, cujos silêncios gritam mais alto que os machados. Ao seu lado, Vicky Krieps e Sarah Paulson entregam um duelo de titãs como a madrasta Abby e a irmã Emma, respectivamente. Krieps traz uma frieza aristocrática e manipuladora, enquanto Paulson encarna a cumplicidade forçada e o medo paralisante com uma precisão cirúrgica. A química — ou a falta dela proposital — entre as três sustenta os momentos mais parados do roteiro, transformando jantares tensos e conversas no jardim em verdadeiros campos de batalha psicológicos.
Atuações e Produção
O roteiro acerta ao não tentar "resolver" o mistério histórico — afinal, Lizzie foi absolvida —, preferindo explorar o "porquê" emocional em vez do "como" forense. A narrativa fragmentada, saltando entre o passado opressivo, o crime brutalmente coreografado e o circo midiático do tribunal, permite uma discussão rica sobre como a imprensa da época transformou uma suspeita em monstro midiático, vendendo jornais às custas da histeria moral e do preconceito de classe e gênero. Há uma crítica afiada sobre o patriarcado judiciário e a forma como a "respectabilidade" vitoriana era uma armadura frágil para as mulheres, mas o texto às vezes tropeça no didatismo, explicando demais subtextos que a atuação já deixava claros, o que quebra levemente a imersão nos episódios centrais.
Avaliação Final
Com nota 7.1 no TMDB, a série se posiciona como um drama de prestígio sólido, ainda que irregular no ritmo: os dois primeiros episódios são uma aula de construção de atmosfera, enquanto o desfecho corre risco de parecer apressado diante da complexidade do caso real. Ainda assim, *Monstro: A História de Lizzie Borden* merece ser vista pela coragem de humanizar uma lenda negra da criminologia americana sem absolvê-la moralmente, deixando no ar a pergunta incômoda sobre até onde vai a resistência diante da opressão sistêmica. É televisão de qualidade, feita para ser debatida na mesa do bar ou nos fóruns online, provando que a antologia ainda tem lenha para queimar — desde que continue apostando em atuações dessa calibre.

