Sobre o Filme
Lucía Puenzo já havia nos hipnotizado com "XXY", e em "O Menino Peixe" (2009) a diretora argentina retorna com uma narrativa que transita perfeitamente entre a delicadeza de um romance proibido e a tensão sufocante de um thriller psicológico. A trama acompanha Lala, uma jovem de família abastada, e Guayi, a empregada paraguaia que trabalha em sua casa. Entre olhares furtivos e silêncios carregados de desejo, nasce uma paixão avassaladora que desafia não apenas as convenções, mas os muros invisíveis que dividem a sociedade em que vivem.
Por que Vale a Pena
O que eleva o filme acima do melodrama comum é a forma como Puenzo constrói sua atmosfera densa e claustrofóbica. A diferença de classes sociais não é apenas um pano de fundo, mas um motor narrativo que dita o sufoco das personagens. Quando a falta de perspectivas e a rejeição social empurram o casal para o extremo, a história ganha contornos de crime e fuga, transformando a tentativa de alcançar o Paraguai — terra natal de Guayi — em uma odisseia desesperada por liberdade e recomeço.
Atuações e Produção
No centro dessa engrenagem emocional está o talento magnético de Inés Efrón, cuja entrega ao papel de Lala é visceral, muito bem acompanhada por Mariela Vitale, a Emme, que confere a Guayi uma força telúrica e misteriosa. A química entre as duas atrizes sustenta a ambiguidade da trama, onde o afeto e o perigo caminham lado a lado. A direção de fotografia aposta em tons frios e texturas que quase nos fazem sentir a umidade e o peso da culpa que cercam as protagonistas a cada passo dado em direção ao abismo.
Avaliação Final
A nota 5.7 no TMDB pode parecer um tanto injusta para uma obra que ousa tanto, mas reflete o caráter divisivo de um filme que não entrega respostas fáceis ao espectador. "O Menino Peixe" é uma jornada agridoce sobre o custo de amar sem permissão e sobre os monstros que criamos quando tentamos escapar de nossas próprias prisões. É um drama magnético que, embora exija estômago para lidar com sua carga dramática, deixa uma marca duradoura na retina de quem se arrisca a mergulhar em suas águas turvas.


