Sobre o Conteúdo
Josephine Bornebusch entrega em O Que Tiver Que Ser um exercício cinematográfico que equilibra o caos doméstico com uma sensibilidade quase cirúrgica sobre as fragilidades humanas. Longe de ser apenas um road movie sobre tensões familiares, o longa utiliza a jornada até a competição de pole dancing como um catalisador para verdades há muito represadas. A direção consegue transformar o espaço exíguo de um carro em um microcosmo de conflitos, onde o silêncio diz tanto quanto as discussões acaloradas. É raro encontrar produções que consigam transitar entre o desespero de uma mãe exausta e o humor melancólico sem perder a autenticidade emocional.
Por que Vale a Pena
A performance de Bornebusch, que acumula as funções de diretora e protagonista, é o alicerce que sustenta toda a narrativa com uma vulnerabilidade palpável. Ao lado de Pål Sverre Hagen e da revelação Sigrid Johnson, ela constrói uma dinâmica de grupo que soa assustadoramente real, capturando as rachaduras que o tempo impõe aos relacionamentos mais próximos. O roteiro não busca respostas fáceis ou redenções mágicas para o cansaço parental, preferindo abraçar a imperfeição de personagens que tentam, cada um à sua maneira, não desmoronar. Há um magnetismo inegável na forma como a câmera observa esses rostos, encontrando poesia até mesmo nas interações mais desgastantes.
Atuações e Produção
Tecnicamente, o filme se destaca pela capacidade de elevar o cotidiano a algo que transborda a tela e ecoa na nossa própria rotina. A nota 7.9 no TMDB não é por acaso, pois o longa ressoa profundamente com quem já sentiu o peso de carregar as expectativas alheias enquanto a própria vida parece escapar pelas frestas. O ritmo é cadenciado, sem pressa para chegar ao destino final, o que reforça a ideia de que o percurso geográfico é apenas uma metáfora para a reconexão interna dos envolvidos. Não se trata de uma obra sobre grandes reviravoltas, mas sobre a coragem necessária para encarar o que realmente precisamos mudar em casa.
Avaliação Final
Ao final da sessão, fica a sensação de que O Que Tiver Que Ser é uma crônica sobre a resistência e o amor que persiste mesmo diante da exaustão extrema. Josephine Bornebusch nos convida a olhar para dentro de nossas próprias bagagens emocionais e questionar o que estamos dispostos a sacrificar para manter o afeto vivo. É um filme necessário e maduro, que não subestima a inteligência do espectador e deixa um gosto agridoce de esperança. Certamente, uma das surpresas mais genuínas e bem resolvidas que o catálogo da Netflix nos trouxe recentemente, consolidando a diretora como uma voz indispensável no drama nórdico contemporâneo.





