Sobre o Filme
"Pornô!", um filme brasileiro de 1981, é uma daquelas raras e curiosas cápsulas do tempo que encapsulam o espírito transgressor e, por vezes, caótico do cinema nacional da Boca do Lixo, misturando gêneros de forma tão audaciosa que chega a ser desorientadora. Sob a batuta de John Doo, e contando com episódios escritos por Ody Fraga, a produção se apresenta como uma antologia erótica, mas revela-se um mosaico de intenções que flutuam entre o drama sensual, toques de terror psicológico e pitadas de comédia involuntária. A ousadia temática, na época, era a principal bandeira, mas hoje, o que salta aos olhos é a experimentação narrativa, ainda que nem sempre bem-sucedida.
Por que Vale a Pena
A estrutura fragmentada do filme, composta por vinhetas distintas, permite que o espectador transite por universos bizarros. Em um segmento, temos o flerte com o drama estudantil e a intimidade velada, enquanto outro mergulha de cabeça em fetiches mais sombrios e teatrais, impulsionados pela presença magnética de David Cardoso, figura central na produção da época. O que une essas partes, além do tema adulto, é uma atmosfera densa, quase febril, típica de produções independentes que tentavam empurrar os limites da censura e da moralidade com recursos escassos, mas muita criatividade.
Atuações e Produção
O segmento mais notável, talvez por sua inclinação ao sobrenatural, insere um elemento de fantasia e terror que foge do esperado para um filme rotulado prioritariamente como erótico. A premissa de uma mulher cega que ganha visão através dos reflexos nos espelhos sugere uma ambição de contar histórias mais complexas do que a simples exploração da carne. É nesse ponto que "Pornô!" tenta se elevar, buscando um substrato mais alegórico ou atmosférico, embora o resultado final carregue as marcas de sua urgência de produção.
Avaliação Final
Em suma, "Pornô!" (1981) não é um filme coeso ou tecnicamente polido – o que se reflete na sua nota modesta em plataformas internacionais. Contudo, ele é fascinante como documento histórico e como um exemplo vívido da liberdade criativa que florescia sob pressão no cinema marginal brasileiro. Para quem se interessa pelas experimentações de gênero e pela história do cinema erótico nacional, esta obra dirigida por John Doo é uma curiosidade obrigatória, um carnaval de propostas onde a ousadia muitas vezes supera a execução.
