Sobre o Filme
O cinema tem o poder único de nos colocar, mesmo que por duas horas, na pele do outro, e é exatamente isso o que o drama espanhol "Surda", dirigido por Eva Libertad, faz com maestria. Acompanhamos a história de Ángela, uma mulher surda que vive a doce e assustadora expectativa da chegada de sua primeira filha ao lado do parceiro ouvinte, Héctor. O que deveria ser apenas um momento de celebração em casal, rapidamente se transforma em um terreno minado de inseguranças, quando a iminência da maternidade traz à tona fissuras silenciosas — mas profundas — na dinâmica dos dois, provando que o amor, por si só, nem sempre é suficiente para preencher abismos de comunicação e empatia.
Por que Vale a Pena
A grande força do filme reside na sua capacidade de traduzir visualmente e sensorialmente a experiência de Ángela em um mundo desenhado exclusivamente para quem ouve. A direção de Eva Libertad é cirúrgica ao nos fazer notar os ruídos, os silêncios e as barreiras invisíveis que cercam a protagonista, criando uma atmosfera imersiva que nos deixa à flor da pele. Não estamos diante de uma narrativa piegas ou vitimizadora; pelo contrário, o roteiro trata os dilemas da maternidade com um realismo cortante, questionando como proteger e criar uma criança quando a própria sociedade falha em acolher e compreender a deficiência de quem a alimenta e educa.
Atuações e Produção
No centro dessa engrenagem emocional está uma atuação avassaladora de Miriam Garlo, que dá vida a Ángela com uma força e uma vulnerabilidade magnéticas, perfeitamente secundada por Álvaro Cervantes no papel de Héctor, cujo personagem transita com humanidade entre o apoio genuíno e os privilégios inconscientes de sua condição de ouvinte. A química entre os dois é palpável, refletindo as dores de um casal que precisa reaprender a se comunicar não apenas com palavras, mas com olhares, gestos e a coragem necessária para encarar preconceitos estruturais que muitas vezes vêm disfarçados de boa intenção.
Avaliação Final
Com uma sólida nota 7.2 no TMDB, "Surda" consolida-se como um dos dramas mais necessários e sensíveis da temporada de 2025, lembrando-nos que a verdadeira escuta vai muito além da audição. É um filme que nos convida a sair da nossa zona de conforto e a refletir sobre inclusão, afeto e os sacrifícios invisíveis que fazemos por amor. Prepare o coração, porque esta é daquelas obras que continuam ecoando — ou silenciando com propósito — muito tempo depois que os créditos finais sobem na tela.



